Body shaming e o que eu tenho a ver com isso

A reflexão começou cerca de um mês atrás, quando eu estava com amigas numa festa e uma moça se aproximou do nosso grupinho dizendo que “e daí se minha calça é feia? Ela é 36!” e repetiu isso umas muitas vezes, até a gente se cansar.
Continuou semanas depois, quando essa mesma moça comentava com uma amiga sobre a chegada do verão; e disse que nunca mais sairia da rotina de exercícios, na qual entrara quando o descontrole havia chegado a um limite inimaginável, imaginem: a moça chegou a vestir manequim 40! Que horror, não?*

 Quando eu ouvi a conversa, só consegui pensar que, nossa! isso deve fazer de mim uma baleia. Eu ri e achei bobo porque eu não poderia me sentir mais confortável a respeito do meu corpo do que me sinto hoje. Acontece que nem sempre foi assim, e foi por isso que esses episódios custaram a me sair da cabeça.

Na infância, eu era, nas palavras da minha avó, muito magrela e muito “joelhuda”. Quando veio a puberdade, num minuto eu usava tamanho 34-36 e no outro eu usava 40. Não me achava gorda e não o era, mas não era mais magricela e joelhuda. Na escola, eu jogava handebol e vôlei, andava de bicicleta todos os dias por pelo menos meia hora e ia nadar sempre que não tinha lição de casa ou treino.
Aos 16 anos, comecei a trabalhar das 8h às 18h num cartório, mudei meu horário escolar da manhã para a noite e, é claro, abandonei todas as atividades extracurriculares que não eram fundamentais pra minha formação acadêmica porque eu não tinha tempo ou vontade de encontrar tempo pra me movimentar. Eu gostava daquilo, mas tinha muito mais a ver com diversão e eu não podia me dar ao luxo de me divertir tantas vezes por semana porque eu tinha mais o que fazer.
Não demorou pra que eu começasse a ganhar peso, e me inscrevi numa academia, mas aquele não era o meu jeito favorito de me mexer, então é claro que eu não fiquei por lá o mês inteiro que eu paguei.
Encontrei vários nutricionistas ao longo da minha adolescência e alguns hábitos eram muito fáceis de adquirir, então no começo eu sempre via bons resultados. Quando o ritmo começava a diminuir, no entanto, eu começava a oscilar de um extremo a outro: alternava entre muitas horas sem ingerir absolutamente nada além de água e instantes de compulsão alimentar insana, irrefreável. Invariavelmente, o tratamento nutricional passava a não valer de  nada porque eu simplesmente não seguia o plano.
Fiz incontáveis dietas loucas – a maioria das quais eu escondia de todos, porque era óbvio que aquilo não podia ser saudável. Emagreci tantos quilos quantos ganhei de volta.

Não sei dizer em que parte do caminho foi que eu parei de me preocupar tanto com isso. Quando foi que eu comecei a me achar bonita da maneira que eu sou, a gostar do que vejo no espelho. Assim, desse jeito. Meio gorda, dentes da frente um pouco tortos, quadris imensos. To linda. *muah*

É claro que eu ainda sinto falta de encontrar algum movimento que me faça bem (acontece que bons hábitos são tão difíceis de adquirir quantos os ruins são de largar), espero um dia sentir vontade de verdade de parar de fumar, enfim: trabalhar na minha qualidade de vida.
Eu estava tentando fazer todas as coisas certas, mas pelos motivos errados. E fico feliz que tenha dado tudo errado. Podia ser eu entrando no meio de um grupinho de amigas acima do peso, um mês atrás, só  pra contar pra elas que a minha calça era 36. Talvez, pelo fato de a minha jornada rumo à magreza não ter dado certo, eu tenha me tornado uma pessoa menos superficial. Eu gosto de pensar que sim.

Porque hoje, nem tanto tempo assim depois que tudo isso aconteceu, eu tenho muito mais vergonha de ter maltratado meu corpo da maneira que o maltratei, negando meu biotipo, tentando atingir padrões inatingíveis, ditados por alguém que sequer sabia da minha existência; do que tenho vergonha de tirar a roupa pra ir à praia ou pra transar de luz acesa.
Ainda bem que eu aprendi a me amar mais.

Hilda manda um “beija meu cofrinho” pros ditadores da magreza.

*Alerta de ironia, pra quem é meio Sheldon.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s