Havia sido um dia terrível. Apareceu novamente aquela ansiedade que fazia tempo não lhe aborrecia, e mais uma vez ela se sentiu tão sozinha, que nem um mar de gente lhe sorrindo e dizendo coisas bonitas a impediriam de chorar. Levantou-se da cama, numa de suas últimas tentativas de lutar contra aquele monstro dentro de si, vestiu-se e foi trabalhar. No caminho, não percebeu o céu azul, muito menos que o casaco que escolhera era quente demais pra um dia tão ensolarado. Não notou as flores e o cartão que estavam sobre sua mesa no trabalho. Era dia dos namorados, mas ela jamais saberia que era amada ou quem a amava. Pra falar a verdade, sequer sabia que era dia dos namorados.

Trabalhou, então. Fez tudo o que devia fazer, não parou na hora do almoço. Desejava mais do que tudo ir embora de uma vez. Não sabia o que fazia ali e se arrependia de ter decidido levantar da cama naquela manhã. E às quatro horas, ela voltou pra casa. Passou na farmácia no caminho, devia pegar um daqueles remédios que supostamente ajudariam a adormecer a ânsia, mas na verdade adormeciam a ela. E pensou que seria bom dormir um pouco.

Chegou em casa, tomou um banho, abriu um vinho, leu um pouco. Ouviu suas músicas preferidas. Tomou o dito remédio, mas ela precisava dormir naquele instante, e ainda não estava se sentindo sonolenta, apenas cansada. Então, multiplicou a dose, não saberia dizer por quanto.

Deitou-se e dormiu. Sonhou com uma reunião que era na verdade uma festa para anunciar o seu noivado. Estranhou principalmente o fato de que ela jamais havia visto antes aquele que seria seu noivo. Conhecia e amava todos os outros convidados e não conseguia se lembrar quem era ele. Mas ela sorria, e o noivo sorria, ao contrário de todos os outros. De repente, no entanto, percebeu que todos usavam preto. Passou a notar as lágrimas dos outros convidados, mas deu de ombros porque estava feliz e trocava juras de amor e brindava à vida com aquele homem que ela mal conhecia. E sorriam, felizes. Havia um caixão na festa, mas isso não a perturbou, e sim atiçou sua curiosidade. Quando chegou perto do esquife, porém, pode ver claramente que seu corpo lá jazia. O noivo segurou sua mão e foi aí então que percebeu o quanto a mão dele era gelada e sua tez, pálida. Ele sussurrou ao seu ouvido “está na hora”, e ela então sorriu mais uma vez, abraçou a irmã, jogou um beijo aos pais e sumiu-se nos braços do seu mais novo amor. Não acordou.

Enquanto isso, sobre a mesa que havia sido dela no escritório em que trabalhava, havia um cartão. E o cartão dizia:

“Nos vemos à noite. M.”

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Speechless

Faz tanto tempo desde a última vez em que eu escrevi aqui e tanta coisa mudou.  Acontece que, de alguma forma, tudo continua tão igual. E eu quis tanto escrever, tirar um pouco isso de mim, até o fiz, mas nada me pareceu bom o suficiente ou interessante o suficiente. Exatamente porque quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas e isso. é tão. cansativo.
Tem tanta gente pra quem eu preciso ligar, não só gente que pode realmente mudar o cenário, mas gente de quem eu preciso por motivos de preciso. E daí eu to  aqui incapaz de pegar o telefone e vai saber porque.
E não fosse o suficiente estar super precisada daquela terapia a gata resolve que dá estágio com pessoas loucas, então tá. Eu queria apenas comentar que apareço (quando apareço) depois das 9h e saio antes das 15h30m e ainda assim teve nega que me achou ~~ameaçadora o suficiente para simular que eu furtei coisas do escritório. risos. muitos risos.
Uma vida resumida em sentir que se está a milhas e milhas e milhas de qualquer lugar decente. Em qualquer momento da vida. Em qualquer fragmento de sonho.

***

– Pai, to tão insatisfeita com a minha vida.
– Todo mundo tá insatisfeito. Tem gente que finge melhor.

***

Uma biblioteca linda no escritório, cheia de títulos deliciosos. A gata escolhe para ler nesta semana super legal: Amar, verbo intransitivo. Só queria que todos soubessem que se a vida está um saco a culpa disso é toda minha.
Pelo menos o boy tá barbudo (depois de uma insistência sem fim, acho que ele desistiu) e me ama.

Sol na casa 8, Lua na casa 1

“Neste período, que vai de 01/07 (Hoje) a 03/07, a passagem do Sol pelo setor das crises pessoais pode significar um transbordamento de emoções e problemas que você tem tentado evitar nos últimos meses, Ana. A Lua em trânsito pela Casa 1 lhe chama à consciência de suas emoções, mas sugere também uma certa instabilidade emocional. A Lua neste momento pede que você não faça de conta que não existem coisas que lhe incomodam e que dê atenção a estes pontos.”

Querida Lua na casa 1, eu não tenho tempo pra isso. Não agora, não amanhã e nem dia 03. Instabilidade emocional, rá. Olha, esse surto vai ter de esperar mais um bocadinho…

Será que se eu enfiar os dedos nos ouvidos e gritar lalalalalalaáááá, consigo continuar fingindo que esses problemas não existem? Espero que sim, porque é exatamente o que eu pretendo fazer.

kd vodca

Das desvontades

Você já atravessou a rua só porque viu que alguém conhecido se aproximava? Não estou falando de “conhecidos”, daqueles que você não se importaria sinceramente nem por um segundo se morressem. To falando de gente conhecida mesmo, com quem você simpatiza ou até gosta.

Daí eu tava voltando pra casa hoje na hora do almoço e eu vi que fiz isso. Eu vi uma moça que eu conheço e até gosto, mas fingi não notar e atravessei a rua, porque vai que essa desvontade é contagiosa? Já pensou, a moça tá lá toda feliz escolhendo os tomates dela (ela tava na quitanda, perto de casa), despreocupada da vida, enquanto eu me aproximo sorrateiramente e despejo toda essa falta de querer em cima dela. Nada é tão ruim quanto essa languidez inconveniente, e eu não desejaria isso pra minha conhecida, de quem eu inclusive gosto.

Ontem foi bom porque eu tava tão mal, mas daí ele me ligou e percebeu. E veio. E me abraçou forte e me beijou fundo e disse que “minha querida, você não pode ficar assim, o que eu posso fazer por você?” e eu queria dizer que tudo o que ele podia fazer ele já tinha feito, mas nada saiu. É engraçado como umas coisas fáceis de sair crescem na garganta da gente mas parecem que grudam no céu da boca. Feito bala de goma. Ou aquelas 7 Belo.
Outro dia eu precisava ir ao banco pagar uma conta, mas achei que era tanto esforço desnecessário, e no mesmo instante em que eu desci do ônibus me bateu uma ânsia incontrolável e desmedida de ir pra casa. Sentei na praça e chorei um pouco, me perguntando qual seria a utilidade de todo aquele drama pra pagar a porra de uma conta no banco. Né?

Então eu não vou. Preciso de um documento do colégio aonde terminei o ensino médio, mas fica pra outro dia. Tem uma palestra na faculdade, mas será que eu vou? Tão longe de casa, demora tanto pra voltar… Vale a pena sair de casa, se quando as pessoas falarem comigo eu vou apenar revirar os olhos e usar um misto de sarcasmo e ironia, apenas pra elas desistirem de mim antes que eu desista delas?

Não, acho que eu não vou.

Sem título #1

Você é tão lindo que hoje eu me peguei aqui pensando se você consegue ter uma vida normal. Porque, veja só: é impossível articular palavras, que dirá frases quando você está perto demais. Será que você já conseguiu conversar com alguém que não fosse da sua família ou que você não conhecesse desde criança? Aliás, você devia ser uma criança lindíssima. Ou talvez o mundo inteiro não seja assim tão tolo quanto eu.
Eu finjo que sou forte e tento não fazer cara de pateta quando você se aproxima, mas cara, você sorri com covinhas no canto da boca e quando eu dou por mim tô aqui pagando de abestalhada sem conseguir pensar noutra coisa que não seja esse sorriso incrível e, meus ais!, covinhas tão miúdas, tão lindas, tão. Covinhas.
Você é tão grande e cheio de si e presente. Enche uma casa inteira. Enche de gargalhada alta, de cheiro de loção pós-barba misturado com cigarro, enche de uma ternura tão profunda quanto nova. E você é tão… solar, Deus! Você e seu sorriso largo cheio de bochechas, parece a personificação do verão, do calor, da vontade. Da minha vontade.
Impossível não te querer assim.

Namorado,

Um dia desses não me aguento, te prendo num canto até conseguir falar tudo o que tem aqui guardado em mim.

Aí eu vou te dizer que eu te adorava antes de saber que iríamos ficar juntos e que, quando você diz que eu já tinha uma queda enorme por você, eu nunca confesso que é só pra te contrariar.

Vou te contar que eu tive bem muita vontade de te dizer que sim daquela vez em que você me pediu em namoro, mas eu achei que era só o álcool falando e eu senti medo de que você ainda não me quisesse como eu já te queria.

Depois eu vou tentar te explicar como eu me sinto quando você me olha assim, lindo, e me diz que eu sou a “coisa mais foda que já aconteceu” na sua vida.

Espero criar coragem pra te contar que toda vez que eu olho nesses olhos de um castanho que eu nunca vi igual, eu rezo baixinho pra você me querer pra sempre. E se qualquer lampejo os ilumina por um instante que seja, aí eu emendo uma rezinha pra que os nossos filhos tenham olhos desse castanho incrível e cílios compridos feito os seus.

Nesse dia eu te conto da ternura imensa que é quando você começa a me confessar coisas lindas e dividir segredinhos e me encher de bronca, dizendo que eu sou teimosa e atrevida. Ou quando descubro em ti outras cócegas e você finge que detesta. Quando eu tento fingir que não sou uma louca risonha, daí te olho e você nem disfarça o sorriso no canto da boca. Quando você faz das suas muitas brutas gentilezas, aparece de surpresa ou me traz flores lindas. Quando você me preparou aquele jantar-de-quase-um-ano. Quando pede pra eu ficar só um pouquinho mais.

Te listo todos os carinhos que eu adoro muito, desde aqueles que amolecem meu coração até os que amolecem meus joelhos.

E daí eu te confesso o mais importante. Te confesso que você me fez sorrir quando eu achei que não conseguia, que você me encantou quando eu pensei que não pudesse acontecer de novo. Que você despertou em mim sensações únicas, diferentes de todas as outras, quando eu achei que já houvesse experimentado todo tipo de amor.

Te conto tudo, te peço pra casar comigo, me abraçar e não sair nunca mais.

Um dia desses.

Pra eu do futuro

(vi parecido numa propaganda d’O Boticário e vou copiar, dá lincença)

Ana,

eu resolvi te escrever hoje porque a gente tá muito feliz. E, você sabe, demorou tanto!

Nove meses atrás, completamente confusa, de coração partidinho em mil e três pedaços, você não imaginava que era só olhar pro lado pras coisas começarem a mudar, não é mesmo?

Naquele tempo (e nem faz tanto tempo assim), não havia cafeína que chegasse, cigarro que bastasse, lenço que sobrasse. Você colocava a cabeça no travesseiro não pra dormir, mas pra se perguntar como é que alguma coisa podia doer tanto, lembra?

Hoje você não conseguiu dormir, mais uma vez. Mas dessa vez foi de felicidade.

Eu espero que, quando a você estiver lendo isso (num futuro próximo ou distante, tanto faz), este texto te faça lembrar que tudo passa…

Eu espero que você tenha conseguido mais dias como hoje. Assim, de se pegar suspirando, de sorrir sozinha, de achar os olhos cheios d’água no meio de um sorriso besta… Porque nós merecemos muito mais disso. De silêncios confortáveis, de doçuras ao pé do ouvido, de abraços quentes nesse inverno tão gelado, de dividir bobagens, de fazer cócegas, de adorar os pequenos defeitos, de dividir o cigarro, de sorrir com os olhos.

Então é isso. Se hoje você estiver triste, saiba: tudo passa. Se estiver feliz: você merece.

Deixe de ser besta e vá dormir.

Boa noite. :*