Três

Meu pequeno,

O dia de ontem veio e se foi tão depressa, e apesar de eu te pensado em você o tempo inteiro, não deu pra escrever como nos outros dois anos.
Acho que você não se importa de eu ter deixado pra escrever hoje, não é mesmo? Até porque você deve ter ficado tão entretido brincando com seus tantos brinquedos novos, que nem se importou com a falta dessa carta tão chata e cheia de mais do mesmo.

166026_458266804265074_198175432_nVocê ontem fez três anos, e às vezes eu acho que foi ontem que você vinha ao mundo, num embrulho tão cuidadoso que parecia de presente pra nós. Outras vezes, porém, eu acho que minhas contas não devem estar certas, porque você é muito muito esperto! É claro que a criança da gente é sempre a mais esperta, mais legal, mais inteligente, mais feliz do mundo, mas você é diferente. Eu sei que é.  O meu encantamento por você não tem fundamento só na minha corujice de tia-madrinha, não. Você é a criança mais esperta e carinhosa que eu já conheci na vida. E, do alto da sua pouca idade, questiona, briga, insiste em não fazer só porque tem que fazer, quer saber o que está por trás daquilo tudo, de onde veio a necessidade, e o que acontece depois dela.

A vovó dá gargalhada e diz que você tem o meu temperamento. Eu dou de ombros e finjo pra ela que não ligo muito, porque eu sou adulta e a gente adulta é meio bobona. A verdade mesmo, é que eu fico muito contente.  Você é um raiozinho de sorriso num dia cinza de triste. A maior doçura da vida inteira é ouvir a sua risada, é ver o quanto você fica feliz quando eu e o titio chegamos na sua casa pra te ver. E daí a gente se dá tão bem, bate o maior papo, você me conta da escolinha e canta as músicas novas que aprendeu e eu te encho de beijinhos do amor mais puro que tem no meu coração, já não tão puro quanto o seu.

Miguel, você é o amor mais terno da minha vida inteira. Desde o momento em que eu soube que você crescia, eu te amei. Não importa o quanto você cresça, o quanto você mude. Esse amor é todinho seu.

Eu te desejo, nesse aniversário, que você continue crescendo saudável assim e inteligente assim. Eu desejo que nesse ano você aprenda muitas outras letrinhas, além do M de Miguel. Que você entenda muitas outras coisas, além do porquê de escovar os dentes todos os dias. Que você continue iluminando nossos dias e nossa vida inteira com esse seu sorriso gostoso e seu cantar mais gostoso ainda.

Feliz aniversário, meu amor!
Te amo demais!

Tia Ana.

(mais) Miguelices

Ana: — Quem vai comer batatinha?
Miguel: — E-eu!
A: — Quem vai comer feijaozinho?
M: — E-eu!
A: — Quem vai comer beterraba?
M: — Eu na-ão!

***

Papai tentando mexer no laptop e o Miguel enfiando o dedinho em tudo que era lugar.
P: — Peraí, cara!
M: — Cara não, Miguel Cunha!

***

A: — Miguel, hora de dormir.
M: — Canta a música do pintinho amarelinho.
A: —  ♪♫ Meu pintinho amarelinho Cabe aqui na minha mão…♪♫
M:— Agora a da mãezinha do Céu.
A: —  ♪♫ Mãezinha do Céu, eu não sei rezar… ♪♫
A: — Agora chega, vamos dormir.
Miguel senta na cama, aponta o dedinho: — Olha a palhaçada, hein, tia Ana.

***

Sempre que a gente chama por qualquer motivo o Miguel responde: Sim senhora/senhor, vovó/vovô/papai/mamãe/titia/titio.

***

E se alguém briga com ele:
—  Chato!
— Quem é chato, Miguel?
— Eu!

 

 

I want it all

Sempre que eu sei de você me invade esse quentinho no peito, misturado com uma angústia e uma dose enorme de saudade.
E aí eu rolo a noite inteira na cama, às vezes insone, às vezes sonhando com uma cama nunca mais arrumada; um Box pequeno demais; três sapinhos abraçados e sorridentes; o céu cinza mais feliz do mundo.
E por vezes a minha vontade de te abraçar uma outra vez me dói a barriga. Por vezes pensar que isso pode não acontecer me dá medo e ânsia de vômito.
Não que eu não esteja feliz, porque eu estou. Me sinto segura, amada, útil.
Mas se eu pudesse querer qualquer coisa no mundo, se eu tivesse um gênio da lâmpada, eu quereria ter tudo. E tudo eu sei que não posso ter.

Dois.

Miguel, dois anos! Dois anos inteirinhos, como você cresceu! Como eu cresci também, juntinho com você.  Se eu parar pra pensar direitinho, acho que você me ensina muito mais do que eu ensino a você. Desde que me tornei a “tia Ana”, me sinto mais responsável. Pelas minhas atitudes e pela maneira de encarar a vida, principalmente. Todo o cuidado do mundo é pouco quando você me olha com a sua carinha de dúvida, porque eu sei que aquilo que te digo hoje e que te ensino como certo/errado hoje vai grudar na sua cabecinha e demorar pra sair. Porque você é inocente e não merece que coloquemos caraminholas onde devem haver apenas alegria, simpatia e  esses fiozinhos finos e loirinhos por enquanto.
Me enche de ternura o modo como nós temos coisinhas só nossas, e o jeito que você ri gostoso das brincadeiras mais bobas do mundo que eu invento pra te distrair. Amo o fato de você adorar ir dormir comigo, só porque eu faço suas vontades e te deixo brincar cinco minutinhos além da conta, ou porque eu te conto histórias onde o Lobo Mau tem um trator grandão (e você adora trator grandão!) e os porquinhos somos todos nós, até a Malu.
Peço a Deus todos os dias pra continuar cuidando bem muito de você, e colocar mais uns dois anjinhos da guarda na sua cola, que eu acho que os seus estão fazendo hora extra e ficando cansados, isso porque você é MUITO levado e toma um tombo a cada cinco minutos.
Às vezes a tia Ana precisa estudar e eu sinto muito que você ainda não entenda que eu não posso te dar atenção nessas horas, mas você é esperto e logo logo vai saber. Às vezes você faz ou fala umas coisas feias (muitas você aprendeu aqui em casa, até) e a tia briga e fica brava, mas logo você entende que não é tudo o que seus pais e avós ou padrinhos fazem que é bonito. Nós erramos muito, também.
O importante é que você saiba que nós queremos, do fundo do nosso coração, acertar tudo pra você. Queremos fazer que tudo seja mais fácil pra você do que foi e é pra nós. Claro que algumas vezes vamos conseguir, outras vezes não vamos. Muitas vezes vai ser difícil pra você, porque é assim mesmo. Mas aí você vai descobrir que o fácil não tem tanta graça quanto o difícil. E você vai ter a nós todos, sempre. E o difícil vai ficando fácil porque você vai ficando craque nisso.

Piquitinho, amo você demais. Amo você que  quase não cabe. Pra sempre.
Feliz aniversário!
Um beijo grandão (maior que o trator!) da madinha Ana.

Amarelo-ouro

Me achei sentindo uma saudade de você tão desmedida, que eu jurava que podia desmaiar a qualquer momento. Parecia que as pequenas saudades que eu vinha sentindo todo dia resolveram se unir contra mim numa forma de protesto por ter, deliberadamente, parado de te procurar.

Cheguei a pensar que isso era mesmo muito inconveniente, mas me lembrei de que, nesses tantos anos, você jamais foi inconveniente. Nunca me incomodou, nem nas coisas que, em outras pessoas, me fariam querer arrancar os cabelos. Como esse jeito tão calmo de lidar comigo e minhas neuras, me aquietar a alma; ou como quando a ideia era totalmente sua e tudo fazia parecer que havia saído da minha cabeça. Seu jeito de andar, de menino que cresceu demais e de repente parecia não saber o que fazer com todo aquele tamanho. Ou como quando você segurava a minha mão, tão leve. Tão leve e depois me apertava inteira.

Reli seus e-mails (os que não foram-se embora com o hotmail que perdi) e chorei, desnorteada, ao não conseguir mais me encaixar ali dentro. Você me descrevia como alguém tão livre e se dizia inclusive amedrontado por aquela liberdade. Aonde? O que eu nunca tive coragem de te contar é que eu era livre assim somente com você e pra você, porque você me permitia essa liberdade. Se havia alguém com quem eu podia ser exatamente aquilo que desejasse, esse alguém era você. E era exatamente essa liberdade que me prendia a nós dois e àquela ideia de ir vender santinho de barro e artesanato em qualquer lugar de Minas.

Se há uma saudade que vai ficar em mim pra sempre, essa saudade é sua, toda sua. Você continua tão amarelo, de olhos tão verdes, e tão sorridente, e tão incrível e tão lindo quanto sempre foi nos meus sonhos e é de verdade .

E eu que achava impossível amar mais de uma vez ao mesmo tempo, porque o amor devia ser tão inteiro e intenso e completo, logo eu que duvidava desse amor, acabei de me dar conta que ofereci um amor inteirinho a outra pessoa sem pra isso ter que tirar sequer um pedacinho do amor que é seu e continua aqui da mesma maneira que sempre foi: inteiro, intenso e completo. E parece que vai ser assim pra sempre.

Sem título #1

Você é tão lindo que hoje eu me peguei aqui pensando se você consegue ter uma vida normal. Porque, veja só: é impossível articular palavras, que dirá frases quando você está perto demais. Será que você já conseguiu conversar com alguém que não fosse da sua família ou que você não conhecesse desde criança? Aliás, você devia ser uma criança lindíssima. Ou talvez o mundo inteiro não seja assim tão tolo quanto eu.
Eu finjo que sou forte e tento não fazer cara de pateta quando você se aproxima, mas cara, você sorri com covinhas no canto da boca e quando eu dou por mim tô aqui pagando de abestalhada sem conseguir pensar noutra coisa que não seja esse sorriso incrível e, meus ais!, covinhas tão miúdas, tão lindas, tão. Covinhas.
Você é tão grande e cheio de si e presente. Enche uma casa inteira. Enche de gargalhada alta, de cheiro de loção pós-barba misturado com cigarro, enche de uma ternura tão profunda quanto nova. E você é tão… solar, Deus! Você e seu sorriso largo cheio de bochechas, parece a personificação do verão, do calor, da vontade. Da minha vontade.
Impossível não te querer assim.

Que seja.

Tem tanto tempo que eu quero escrever algo sobre nós dois, sobre a paz que tomou conta da gente e nos fez mais fortes.
Acontece que toda vez que eu sentava aqui pra escrever e começava a me sentir orgulhosa e feliz, era como se uma voz gritasse dentro da minha cabeça. E ela gritava que não, eu NÃO PODIA me sentir daquela forma, eu não podia me sentir alegre ou leve com relação a nós dois.  Era uma vergonha que eu estivesse feliz, eu só podia ser mesmo uma burra por estar feliz. A felicidade foi feita apenas para os idiotas; quem possui um cérebro e a capacidade de usá-lo está fadado a sentir-se miserável eternamente.

Então, ser feliz com você seria assim tão absurdo? Mais absurdo que nos condenar a essa falsa sensação de paz? Mais absurdo que ter me permitido ser feliz quando gente que sequer chegou a me amar me fez sofrer tanto; mais absurdo que perdoar essa gente?

Então, que seja.
Eu não posso continuar fechando meus olhos pra todo o bem que você tem me feito, nem agir como se tudo fosse uma compensação pelo que aconteceu conosco. Eu não posso continuar me comportando como se, pelo fato de você ter cometido um erro — enorme, é verdade, mas um erro — toda a minha arrogância seja compreensível.

Você foi capaz de transformar toda aquele vazio e aquela dor num sossego que eu não sei começar a descrever. Me fez querer ser paciente e te ver mudando, dia após dia, me fez querer ficar pra perceber essa mudança.

De um jeito meio torto, me lembrou a primeira vez em que você disse que me amava. A gente viajou pro litoral com os seus amigos e você ficou bêbado demais, cedo demais.
— Eu te amo, cara — eu não sei como você consegue, mas tem hora que você sorri com a cara toda e naquela hora você sorria com os dentes, a boca, os olhos e o nariz. Lindo. Lindo.
— Você tá bêbado.
— Mas é verdade.
— Amanhã você nem vai lembrar disso.
— Amanhã eu vou acordar sóbrio e vou te dizer de novo que eu te amo.

E foi o que você fez na manhã seguinte. E foi assim que, dia após dia, você acordou sóbrio de toda essa bagunça e me disse de novo, e de novo, e de novo. Até que eu finalmente acreditasse. Até que eu dissesse de volta. Até que eu desejasse te amar de novo do mesmo jeito que eu te amei quando te vi sorrindo com o queixo e as sobrancelhas, ainda não sei se do álcool ou se da  antecipação de dizer “eu te amo” pela primeira vez.

E é assim que eu desejo te amar. Sem pensar demais, nunca mais, pra não me privar de sentir a ternura que eu sinto pelos seus olhos castanhos. Essa ternura que eu sinto pelo seu cabelo despenteado, pela sua bermuda surrada. Essa ternura de cheirar seu pescoço e querer sentir isso pra sempre.

Então, que seja. Que seja dócil até ser bobo de novo.

Amica,

Feliz Aniversário!

Sabe, é engraçado pensar que esse é apenas o segundo aniversário seu que comemoro contigo e fico feliz por você existir porque pra mim parece que você está comigo a vida inteira. Talvez seja porque eu me sinto como se você fosse o pedacinho que faltava pra ficar tudo certo e azul, ou talvez porque eu tenha meio que torcido o nariz pro seu jeito mal humorado no começo e logo depois do primeiro oi a minha implicância foi toda embora, e eu gostei muito disso.

Anyways, hoje eu só queria te dizer que eu te amo muito e que eu nunca vou esquecer sua generosidade, seu carinho, seu coração imenso que às vezes parece não caber nesse corpinho de menina. Adoro seu mau humor quase infantil, que esconde gargalhadas deliciosas e sinceras, seu jeito ácido e essa língua desbocada, sem travas, de uma sinceridade bonita e consistente. 

Adoro a sua casa, que tem cheiro de lar; e a sua família que é linda e acolhedora. Saber que você é amada, que tem outros amigos de verdade, me deixa tranquila porque às vezes eu não sei ser a amiga que você precisa, mesmo que eu não deseje ser assim. Ler seus textos e te sentir feliz e leve é um acalanto, você não merece nada menos que leveza e alegria.

Nunca vou me esquecer das vezes em que eu precisei e te vi lá, nem de todas as vezes em que a gente deu risada do que achava que era, do que sabia que não era, e até do que acabou sendo. Pensar nas vezes em que você negou sua dor pra sentir a minha aquece meu coração e me emociona. Você tem sido maravilhosa, e eu agradeço a Deus por ter te encontrado. Ou por você ter me encontrado, eu não sei direito como aconteceu.

Te amo muito, muito, muito. Que seus 23 sejam lindos, doces, leves e cheios de sacanagem.

Namorado,

Um dia desses não me aguento, te prendo num canto até conseguir falar tudo o que tem aqui guardado em mim.

Aí eu vou te dizer que eu te adorava antes de saber que iríamos ficar juntos e que, quando você diz que eu já tinha uma queda enorme por você, eu nunca confesso que é só pra te contrariar.

Vou te contar que eu tive bem muita vontade de te dizer que sim daquela vez em que você me pediu em namoro, mas eu achei que era só o álcool falando e eu senti medo de que você ainda não me quisesse como eu já te queria.

Depois eu vou tentar te explicar como eu me sinto quando você me olha assim, lindo, e me diz que eu sou a “coisa mais foda que já aconteceu” na sua vida.

Espero criar coragem pra te contar que toda vez que eu olho nesses olhos de um castanho que eu nunca vi igual, eu rezo baixinho pra você me querer pra sempre. E se qualquer lampejo os ilumina por um instante que seja, aí eu emendo uma rezinha pra que os nossos filhos tenham olhos desse castanho incrível e cílios compridos feito os seus.

Nesse dia eu te conto da ternura imensa que é quando você começa a me confessar coisas lindas e dividir segredinhos e me encher de bronca, dizendo que eu sou teimosa e atrevida. Ou quando descubro em ti outras cócegas e você finge que detesta. Quando eu tento fingir que não sou uma louca risonha, daí te olho e você nem disfarça o sorriso no canto da boca. Quando você faz das suas muitas brutas gentilezas, aparece de surpresa ou me traz flores lindas. Quando você me preparou aquele jantar-de-quase-um-ano. Quando pede pra eu ficar só um pouquinho mais.

Te listo todos os carinhos que eu adoro muito, desde aqueles que amolecem meu coração até os que amolecem meus joelhos.

E daí eu te confesso o mais importante. Te confesso que você me fez sorrir quando eu achei que não conseguia, que você me encantou quando eu pensei que não pudesse acontecer de novo. Que você despertou em mim sensações únicas, diferentes de todas as outras, quando eu achei que já houvesse experimentado todo tipo de amor.

Te conto tudo, te peço pra casar comigo, me abraçar e não sair nunca mais.

Um dia desses.

Tudo o que eu queria dizer

Vinha procurando uma forma de contar aqui tudo o que você tem me feito sentir, mas eu nunca consegui escrever nada que fizesse tanto sentido, nada explicado explicadinho o que eu quero que você saiba.

Aí hoje eu encontrei esse texto, e ele é tudo tudo o que eu quero te dizer.

O último

Tati Bernardi

Eu me descubro ainda mais feliz a cada pedaço seu e de tudo o que é seu. Eu amo tanto o seu banheiro com as combinações em verde e a chuva fina do chuveiro, que chorei essa manhã enquanto você tomava taffman-e e ouvia música eletrônica.
Às vezes você é tão bobo, e me faz sentir tão boba, que eu tenho pena de como o mundo era bobo antes da gente se conhecer.
Eu queria assinar um contrato com Deus: se eu nunca mais olhar para homem nenhum no mundo, será que ele deixa você ficar comigo pra sempre?
Eu descobri que tentar não ser ingênua é a nossa maior ingenuidade, eu descobri que ser inteira não me dá medo porque ser inteira já é ser muito corajosa, eu descobri que vale a pena ficar três horas te olhando sentada num sofá mesmo que o dia esteja explodindo lá fora.
E quando já não sei mais o que sentir por você, eu respiro fundo perto da sua nuca, e começo a querer coisas que eu nem sabia que existiam.
Quando a gente foi ver o pôr-do-sol na Praça pôr-do-sol, eu, você e a Lolita, a minha cachorrinha mala, e a gente ficou abraçado, e a gente se achou brega demais, e a gente morreu de rir, eu senti um daqueles segundos de eternidade que tanto assustam o nosso coração acostumado com a fugacidade segura dos sentimentos superficiais.
Eu olhei para você com aquela sua jaqueta que te deixa com tanta cara de homem e me senti tão ao lado de um homem, que eu tive vontade de ser a melhor mulher do mundo.
E eu tive vontade de fazer ginástica, ler, ouvir todas as músicas legais do mundo, aprender a cozinhar, arrumar seu quarto, escrever um livro, ser mãe.
E aí eu só olhei pra bem longe, muito além daquele Sol, e todo o meu passado se pôs junto com ele. E eu senti a alma clarear enquanto o dia escurecia.
Eu te engoli e você é tão grande pra mim que eu dedico cada segundo do meu dia em te digerir. E eu não tenho mais fome, e eu tenho que ter fome porque eu não quero você namorando uma magrela. E eu sonhei com você e acordei com você, e eu te olhei e falei que eu estava muito magrela, e você me mandou dormir mais, e me abraçou.
Eu preciso disfarçar que não paro mais de rir, mas aí olho pra você e você também está sempre rindo. Se isso não for o motivo para a gente nascer, já não entendo mais nada desse mundo.
E eu tento, ainda refém de algumas células rodriguianas que vez ou outra me invadem, tentar achar defeito na gente, tentar estragar tudo com alguma sujeira.
Mas você me deu preguiça da velha tática de fuga, você me fez dormir um cd inteiro na rede e quando eu acordei o mundo inteiro estava azul.
Engraçado como eu não sei dizer o que eu quero fazer porque nada me parece mais divertido do que simplesmente estar fazendo. Ainda que a gente não esteja fazendo nada.
Eu, que sempre quis desfilar com a minha alegria para provar ao mundo que eu era feliz, só quero me esconder de tudo ao seu lado.
Eu limpei minhas mensagens, eu deletei meus emails, eu matei meus recados, eu estrangulei minhas esperas, eu arregacei as minhas mangas e deixei morrer quem estava embaixo delas. Eu risquei de vez as opções do meu caderninho, eu espremi a água escura do meu coração e ele se inchou de ar limpo, como uma esponja. Uma esponja rosa porque você me transformou numa menina cor-de-rosa.
Você me transformou no eufemismo de mim mesma, me fez sentir a menina com uma flor daquele poema, suavizou meu soco, amoleceu minha marcha e transformou minha dureza em dança. Você quebrou minhas pernas, me fez comprar um vestido cheio de rendas e babados, tirou as pedras da minha mão.
Você diz que me quer com todas as minhas vírgulas, eu te quero como meu ponto final.