Amarelo-ouro

Me achei sentindo uma saudade de você tão desmedida, que eu jurava que podia desmaiar a qualquer momento. Parecia que as pequenas saudades que eu vinha sentindo todo dia resolveram se unir contra mim numa forma de protesto por ter, deliberadamente, parado de te procurar.

Cheguei a pensar que isso era mesmo muito inconveniente, mas me lembrei de que, nesses tantos anos, você jamais foi inconveniente. Nunca me incomodou, nem nas coisas que, em outras pessoas, me fariam querer arrancar os cabelos. Como esse jeito tão calmo de lidar comigo e minhas neuras, me aquietar a alma; ou como quando a ideia era totalmente sua e tudo fazia parecer que havia saído da minha cabeça. Seu jeito de andar, de menino que cresceu demais e de repente parecia não saber o que fazer com todo aquele tamanho. Ou como quando você segurava a minha mão, tão leve. Tão leve e depois me apertava inteira.

Reli seus e-mails (os que não foram-se embora com o hotmail que perdi) e chorei, desnorteada, ao não conseguir mais me encaixar ali dentro. Você me descrevia como alguém tão livre e se dizia inclusive amedrontado por aquela liberdade. Aonde? O que eu nunca tive coragem de te contar é que eu era livre assim somente com você e pra você, porque você me permitia essa liberdade. Se havia alguém com quem eu podia ser exatamente aquilo que desejasse, esse alguém era você. E era exatamente essa liberdade que me prendia a nós dois e àquela ideia de ir vender santinho de barro e artesanato em qualquer lugar de Minas.

Se há uma saudade que vai ficar em mim pra sempre, essa saudade é sua, toda sua. Você continua tão amarelo, de olhos tão verdes, e tão sorridente, e tão incrível e tão lindo quanto sempre foi nos meus sonhos e é de verdade .

E eu que achava impossível amar mais de uma vez ao mesmo tempo, porque o amor devia ser tão inteiro e intenso e completo, logo eu que duvidava desse amor, acabei de me dar conta que ofereci um amor inteirinho a outra pessoa sem pra isso ter que tirar sequer um pedacinho do amor que é seu e continua aqui da mesma maneira que sempre foi: inteiro, intenso e completo. E parece que vai ser assim pra sempre.

Das desvontades

Você já atravessou a rua só porque viu que alguém conhecido se aproximava? Não estou falando de “conhecidos”, daqueles que você não se importaria sinceramente nem por um segundo se morressem. To falando de gente conhecida mesmo, com quem você simpatiza ou até gosta.

Daí eu tava voltando pra casa hoje na hora do almoço e eu vi que fiz isso. Eu vi uma moça que eu conheço e até gosto, mas fingi não notar e atravessei a rua, porque vai que essa desvontade é contagiosa? Já pensou, a moça tá lá toda feliz escolhendo os tomates dela (ela tava na quitanda, perto de casa), despreocupada da vida, enquanto eu me aproximo sorrateiramente e despejo toda essa falta de querer em cima dela. Nada é tão ruim quanto essa languidez inconveniente, e eu não desejaria isso pra minha conhecida, de quem eu inclusive gosto.

Ontem foi bom porque eu tava tão mal, mas daí ele me ligou e percebeu. E veio. E me abraçou forte e me beijou fundo e disse que “minha querida, você não pode ficar assim, o que eu posso fazer por você?” e eu queria dizer que tudo o que ele podia fazer ele já tinha feito, mas nada saiu. É engraçado como umas coisas fáceis de sair crescem na garganta da gente mas parecem que grudam no céu da boca. Feito bala de goma. Ou aquelas 7 Belo.
Outro dia eu precisava ir ao banco pagar uma conta, mas achei que era tanto esforço desnecessário, e no mesmo instante em que eu desci do ônibus me bateu uma ânsia incontrolável e desmedida de ir pra casa. Sentei na praça e chorei um pouco, me perguntando qual seria a utilidade de todo aquele drama pra pagar a porra de uma conta no banco. Né?

Então eu não vou. Preciso de um documento do colégio aonde terminei o ensino médio, mas fica pra outro dia. Tem uma palestra na faculdade, mas será que eu vou? Tão longe de casa, demora tanto pra voltar… Vale a pena sair de casa, se quando as pessoas falarem comigo eu vou apenar revirar os olhos e usar um misto de sarcasmo e ironia, apenas pra elas desistirem de mim antes que eu desista delas?

Não, acho que eu não vou.

Sem título #1

Você é tão lindo que hoje eu me peguei aqui pensando se você consegue ter uma vida normal. Porque, veja só: é impossível articular palavras, que dirá frases quando você está perto demais. Será que você já conseguiu conversar com alguém que não fosse da sua família ou que você não conhecesse desde criança? Aliás, você devia ser uma criança lindíssima. Ou talvez o mundo inteiro não seja assim tão tolo quanto eu.
Eu finjo que sou forte e tento não fazer cara de pateta quando você se aproxima, mas cara, você sorri com covinhas no canto da boca e quando eu dou por mim tô aqui pagando de abestalhada sem conseguir pensar noutra coisa que não seja esse sorriso incrível e, meus ais!, covinhas tão miúdas, tão lindas, tão. Covinhas.
Você é tão grande e cheio de si e presente. Enche uma casa inteira. Enche de gargalhada alta, de cheiro de loção pós-barba misturado com cigarro, enche de uma ternura tão profunda quanto nova. E você é tão… solar, Deus! Você e seu sorriso largo cheio de bochechas, parece a personificação do verão, do calor, da vontade. Da minha vontade.
Impossível não te querer assim.