Que dó!

Quando eu te conheci, a única coisa que sabia sobre você eram as estórias que ouvia de um homem que eu amava e que havia compartilhado grande parte da própria vida com você. Então, logo, a admiração dele tornou-se minha também, porque a face que você mostrava era realmente admirável. Inteligente, amigo, presente. Eu te achava foda quando ainda não sabia que você tinha muitas caras, a maior parte delas quiméricas e fantasiosas.
Quando tudo veio abaixo – todas as suas mentiras, as mentiras de todos vocês e junto com elas um ano inteiro, um mundo inteiro no qual eu acreditava – eu senti o chão ruir. A princípio eu não acreditei, ou não quis acreditar. Senti meu corpo ser invadido por uma espécie de torpor que me impedia de pensar direito, de agir direito. Esperei pelo momento em que você fosse ligar e, de alguma forma, tentar me explicar como era aquilo. Mas os dias passaram, com eles semanas e meses passaram e eu acabei me dando conta do que havia acontecido. E aí outra vez aquela modorra e finalmente o estalo que fez quando tudo se encaixou.

Eu costumo agradecer a Deus pela sorte de eu tenho, de nunca ter me envolvido com gente ruim de verdade e até cheguei a pensar que, olha, você era essa pessoa. Mas não. Você não tem coragem o suficiente pra ser ruim de verdade. Você é covarde, pequeno. Se esconde sob sua máscara de bacana, de ouvinte, e daí faz todo o tipo de falsidade com aqueles de quem você jura ser amigo. Trata as pessoas como se elas fossem objetos descartáveis e estivessem ali apenas para te divertir enquanto você não se cansa. Passa por onde precisa, insultando a inteligência de quem seja, usando quem achar que deve.
http://www.orlandopedroso.com.br/Já tive todo o tipo de raiva de você. Já tive raiva de mim por achar que estava voando quando na verdade eu caía feito uma fruta mole de uma árvore alta demais. Tive muita raiva, até bem pouco tempo, porque não conseguia compreender como era possível alguém agir da maneira como você age.
E daí eu te vi de novo, muito, muito tempo depois. Lembrei que, da última vez em que eu te vi, eu te achava o máximo. E fiquei com pena porque você é feio. Por dentro e por fora. E eu nunca tinha me dado conta disso.
O modo como você tentou me abraçar e como forçou a intimidade que já não existe me fez querer gargalhar. O jeito como você se fingiu de ofendido quando eu te cortei depois da milésima vez em que eu fui obrigada a ouvir você forçando a barra incessantemente, isso me fez querer vomitar. A primeira vez em que eu senti essa náusea tão forte, a primeira vez em que julguei alguém tão mal, e, talvez por isso, a maior decepção que eu já tive com alguém.
No carro de volta pra casa eu lutava pra segurar o estômago dentro do tórax enquanto agradecia novamente a Deus, mas desta vez pelo que eu tenho de verdade. Meus amigos que dariam um mundo por mim, que eu pude reconhecer quem são realmente, graças, em parte, a você. Um amor que não é perfeito, mas que me faz bem e que encara junto comigo, dia-a-dia, os próprios erros enquanto tenta consertá-los.
É uma pena você ser o tipo de pessoa que tem tudo pra ser incrível e não consegue ser. Como um filme com o melhor enredo, os melhores atores, porém com um diretor babaca. Você jamais vai ser capaz de experimentar o que é amar alguém o suficiente pra jamais pensar em fazer algo que machuque, ainda que minimamente, o que existe entre vocês. Você não conhece caridade, amizade, empatia. Você não conhece o amor.
Que dó.

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