(mais) Miguelices

Ana: — Quem vai comer batatinha?
Miguel: — E-eu!
A: — Quem vai comer feijaozinho?
M: — E-eu!
A: — Quem vai comer beterraba?
M: — Eu na-ão!

***

Papai tentando mexer no laptop e o Miguel enfiando o dedinho em tudo que era lugar.
P: — Peraí, cara!
M: — Cara não, Miguel Cunha!

***

A: — Miguel, hora de dormir.
M: — Canta a música do pintinho amarelinho.
A: —  ♪♫ Meu pintinho amarelinho Cabe aqui na minha mão…♪♫
M:— Agora a da mãezinha do Céu.
A: —  ♪♫ Mãezinha do Céu, eu não sei rezar… ♪♫
A: — Agora chega, vamos dormir.
Miguel senta na cama, aponta o dedinho: — Olha a palhaçada, hein, tia Ana.

***

Sempre que a gente chama por qualquer motivo o Miguel responde: Sim senhora/senhor, vovó/vovô/papai/mamãe/titia/titio.

***

E se alguém briga com ele:
—  Chato!
— Quem é chato, Miguel?
— Eu!

 

 

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Das desvontades

Você já atravessou a rua só porque viu que alguém conhecido se aproximava? Não estou falando de “conhecidos”, daqueles que você não se importaria sinceramente nem por um segundo se morressem. To falando de gente conhecida mesmo, com quem você simpatiza ou até gosta.

Daí eu tava voltando pra casa hoje na hora do almoço e eu vi que fiz isso. Eu vi uma moça que eu conheço e até gosto, mas fingi não notar e atravessei a rua, porque vai que essa desvontade é contagiosa? Já pensou, a moça tá lá toda feliz escolhendo os tomates dela (ela tava na quitanda, perto de casa), despreocupada da vida, enquanto eu me aproximo sorrateiramente e despejo toda essa falta de querer em cima dela. Nada é tão ruim quanto essa languidez inconveniente, e eu não desejaria isso pra minha conhecida, de quem eu inclusive gosto.

Ontem foi bom porque eu tava tão mal, mas daí ele me ligou e percebeu. E veio. E me abraçou forte e me beijou fundo e disse que “minha querida, você não pode ficar assim, o que eu posso fazer por você?” e eu queria dizer que tudo o que ele podia fazer ele já tinha feito, mas nada saiu. É engraçado como umas coisas fáceis de sair crescem na garganta da gente mas parecem que grudam no céu da boca. Feito bala de goma. Ou aquelas 7 Belo.
Outro dia eu precisava ir ao banco pagar uma conta, mas achei que era tanto esforço desnecessário, e no mesmo instante em que eu desci do ônibus me bateu uma ânsia incontrolável e desmedida de ir pra casa. Sentei na praça e chorei um pouco, me perguntando qual seria a utilidade de todo aquele drama pra pagar a porra de uma conta no banco. Né?

Então eu não vou. Preciso de um documento do colégio aonde terminei o ensino médio, mas fica pra outro dia. Tem uma palestra na faculdade, mas será que eu vou? Tão longe de casa, demora tanto pra voltar… Vale a pena sair de casa, se quando as pessoas falarem comigo eu vou apenar revirar os olhos e usar um misto de sarcasmo e ironia, apenas pra elas desistirem de mim antes que eu desista delas?

Não, acho que eu não vou.

Namorado,

Um dia desses não me aguento, te prendo num canto até conseguir falar tudo o que tem aqui guardado em mim.

Aí eu vou te dizer que eu te adorava antes de saber que iríamos ficar juntos e que, quando você diz que eu já tinha uma queda enorme por você, eu nunca confesso que é só pra te contrariar.

Vou te contar que eu tive bem muita vontade de te dizer que sim daquela vez em que você me pediu em namoro, mas eu achei que era só o álcool falando e eu senti medo de que você ainda não me quisesse como eu já te queria.

Depois eu vou tentar te explicar como eu me sinto quando você me olha assim, lindo, e me diz que eu sou a “coisa mais foda que já aconteceu” na sua vida.

Espero criar coragem pra te contar que toda vez que eu olho nesses olhos de um castanho que eu nunca vi igual, eu rezo baixinho pra você me querer pra sempre. E se qualquer lampejo os ilumina por um instante que seja, aí eu emendo uma rezinha pra que os nossos filhos tenham olhos desse castanho incrível e cílios compridos feito os seus.

Nesse dia eu te conto da ternura imensa que é quando você começa a me confessar coisas lindas e dividir segredinhos e me encher de bronca, dizendo que eu sou teimosa e atrevida. Ou quando descubro em ti outras cócegas e você finge que detesta. Quando eu tento fingir que não sou uma louca risonha, daí te olho e você nem disfarça o sorriso no canto da boca. Quando você faz das suas muitas brutas gentilezas, aparece de surpresa ou me traz flores lindas. Quando você me preparou aquele jantar-de-quase-um-ano. Quando pede pra eu ficar só um pouquinho mais.

Te listo todos os carinhos que eu adoro muito, desde aqueles que amolecem meu coração até os que amolecem meus joelhos.

E daí eu te confesso o mais importante. Te confesso que você me fez sorrir quando eu achei que não conseguia, que você me encantou quando eu pensei que não pudesse acontecer de novo. Que você despertou em mim sensações únicas, diferentes de todas as outras, quando eu achei que já houvesse experimentado todo tipo de amor.

Te conto tudo, te peço pra casar comigo, me abraçar e não sair nunca mais.

Um dia desses.

Post sem título, sem pé e sem cabeça

Eu tenho uma amiga cujo namorado é o melhor do mundo, na opinião de toda solteira romântica. Ele é o tipo de cara que manda flores e traz presentes e bombons em dias aleatórios e liga três vezes ao dia apenas pra dizer que a ama. Nunca esquece um aniversário de namoro desde o primeiro mês juntos e a festa de noivado dos dois foi linda e em família.

E todas as meninas sonham com um namorado destes, porque quem é que não quer ser acordada todos os dias com um café da manhã maravilhoso, quem é que não quer ser adorada e mimada o tempo inteiro?

Eu não quero.

Mas é que eu to muito satisfeita com aquele cara que não é romântico de dizer coisas bonitas de maneira infindável. Quando ele diz que me ama, não diz “Você é linda, inteligente e eu te amo do fundo do meu coração”, mas diz “Puta que pariu, você é muito linda, você é foda, eu te amo pra caralho” e eu acho que assim é mais divertido. Quando quer me fazer rir, ele não me faz cócegas, mas diz qualquer coisa que me irrite muito e é engraçado, porque só tendo a nossa sintonia isso não vira briga. Quando ele quer ser lindo de verdade, me faz surpresinhas e me deixa sorrindo de canto a canto só de lembrar da delícia que é ver aqueles olhos de cílios compridos bem pertinho dos meus.

Eu não quero um namorado que seja o mais romântico do mundo. Ninguém tem saco pra ser a pessoa mais romântica do mundo o tempo inteiro, e quando o romantismo falha uma vez que seja, vira problema. Porque será que ele não ligou hoje? Cadê meu café na cama? Há quanto tempo você não manda flores, hein?

Eu quero humor. Eu quero rir de gargalhar, e ficar surpresa quando vierem as flores e o café na cama. Eu quero achar lindo quando ele me ligar apenas pra ouvir a minha voz mesmo que isso aconteça com a frequência de um eclipse  solar. Eu quero não enjoar da ternura que eu sinto quando ele aparece de surpresa e faz meu coração parar por um segundo. Eu quero saber que é verdade quando ele me diz as doçuras que me diz. Quero deitar naquele abraço morno e saber que ele sente a mesma saudade, a mesma quentura, a mesma borboleta-coruja no estômago.

E eu quero continuar escrevendo posts lamentáveis e sem sentido como este, semana após semana, somente para celebrar a beleza que é estar completamente brega de apaixonada.