Lucas,

Ainda é muito estranho pra mim te escrever assim, esperando que onde quer que você esteja você possa saber do que se trata este texto. Você era jovem demais…
Nós nem éramos próximos, primos tão distantes, e a sua partida me acertou de um jeito que eu nunca imaginei. Talvez porque você tivesse a idade da maioria dos meus amigos. Talvez porque nós tenhamos crescido perto. Talvez porque sua mãe emprestada é uma das mulheres mais importantes da minha vida. Talvez porque sua menininha seja do mesmo tamaninho do Miguel, que eu não imagino viver sem o pai. Eu realmente não sei.

Esse texto não diz nada, na verdade. Talvez nada que alguém gostaria de saber antes de morrer, eu acho. Não posso prometer ficar ao lado da Raquel, você sabe que a gente mal se conhece. Também não posso jurar que cuido da Maria Luiza, ela nem deve se lembrar de mim.

Eu só quero mesmo dizer o quanto eu sinto. E agradecer por umas coisas, que talvez seja tarde demais. É que você foi o irmão do meu irmão quando eu não podia estar perto dele. E ele sempre falou tanto e tão bem de você. E ele está muito muito triste com a sua partida, e isso também parte meu coração.

Como eu disse antes, esse texto não diz absolutamente nada de importante, apenas que eu sinto muito.

Vá em paz.

Toda segunda:

¤ acordar atrasada e cansada;
¤ lutar contra a imensa vontade de permanecer escondida debaixo das cobertas;
¤ não ver absolutamente nenhuma mudança, apesar do esforço incessante;
¤ andar pela casa nos seus chinelos;
¤ chorar um pouquinho pra ver se passa.

Na sexta-feira, ao meio-dia, aconteceu comigo uma coisa que eu buscava há meses. Depois de tanto estudo, de tanto sacrifício, de comer mal e descansar muito pouco, passei numa prova dificílima, provei minha capacidade, fiquei orgulhosa de mim.
À uma da tarde, confirmei uma suspeita horrorosa e desprezível e desde então nada faço além de me perguntar o que dá pra fazer com isso.

No sábado, às três e quarenta da manhã, eu não conseguia dormir nem respirar direito e fui me esconder dos meus monstros debaixo da tua coberta. Você me abraçou e “shhh… respira fundo, assim ó” e de repente eu consegui respirar de novo e finalmente adormecer.
Às dez da noite, você me levou pra sair. E daí tocaram “Daughter” na festinha e você reparou meus olhos tristes, mas disfarçou um pouco antes de me levar embora.

No domingo, às seis e meia da manhã, eu estava prestes a enlouquecer quando você ouviu meus soluços e de um salto veio parar ao meu lado. “Shhh… respira!” E o carinho na cabeça. E finalmente o desmaio.
Daí você me trouxe pra casa e voltou pra sua, porque o fim de semana acabou.

E eu aqui, ainda imaginando o que será que dá pra fazer com isso.
E soluçando e enlouquecendo e sem conseguir respirar direito.
E, por alguma razão, parece que eu só consigo respirar quando você respira do meu lado, só consigo dormir quando você dorme do meu lado.
E eu aqui, morrendo de medo de nunca mais dormir.

Por favor, volta.

Saudade

É irritante o modo como eu sinto sua falta. Sinto falta de acordar do seu lado, sinto falta de conversar por horas e dias, até não cansar. Até não faltar assunto e a gente adormecer falando.

Sinto falta de grudar no teu corpo como se parte dele eu fosse, e de ver seu sorriso satisfeito e sentir suas mãos no meu cabelo e sua voz no meu ouvido e sinto falta de achar que a vida é perfeita e que o mundo podia acabar lá fora, desde que você não parasse de mexer no meu cabelo, desde que você não parasse nunca de me olhar daquele jeito, desde que a gente fosse pra sempre assim, um do outro.

Eu tô com saudade da sua fé, dessa mania que você tem de me fazer acreditar naquilo que eu acho impossível a maior parte do tempo. Exceto quando eu estou com você. Porque quando eu te olho e você diz que vai dar, então eu acredito que vai dar. Mesmo não acreditando.

To com saudade de passar tanto tempo agarrada a você que a gente se mistura. To com saudade do seu cheiro no meu pescoço e das suas ideias na minha cabeça.

To com saudade de dormir uma noite inteira, de não chorar de saudade, de não me sentir frustrada e cansada e infeliz e covarde por ter desistido de nós dois.

Eu sei que tomei a decisão certa pelo motivo certo e não me arrependo. Eu só queria que fosse diferente.