As vezes é muitíssimo chato não ter porte de arma

Preciso acordar às sete. Nunca fui excelente em acordar cedo, mas as coisas funcionam quando eu durmo, tipo, muito cedo.
Hoje eu consegui dormir cedo. Até dez pra uma, que foi quando dois dos meus vizinhos acharam de bom tom vir conversar em voz alta na.minha.porta. Chuchu beleza de lidar, to gata, to linda.
Deitei de novo e outro vizinho achou maneiro buzinar a porra de uma moto debaixo da minha janela durante quarenta minutos.
E tá lá, minha gente, buzinando aquela merda até agora.
Hoje tá muito difícil não perder a fé no bom senso das pessoas, viu.

Toda segunda:

¤ acordar atrasada e cansada;
¤ lutar contra a imensa vontade de permanecer escondida debaixo das cobertas;
¤ não ver absolutamente nenhuma mudança, apesar do esforço incessante;
¤ andar pela casa nos seus chinelos;
¤ chorar um pouquinho pra ver se passa.

(mais) Miguelices

Ana: — Quem vai comer batatinha?
Miguel: — E-eu!
A: — Quem vai comer feijaozinho?
M: — E-eu!
A: — Quem vai comer beterraba?
M: — Eu na-ão!

***

Papai tentando mexer no laptop e o Miguel enfiando o dedinho em tudo que era lugar.
P: — Peraí, cara!
M: — Cara não, Miguel Cunha!

***

A: — Miguel, hora de dormir.
M: — Canta a música do pintinho amarelinho.
A: —  ♪♫ Meu pintinho amarelinho Cabe aqui na minha mão…♪♫
M:— Agora a da mãezinha do Céu.
A: —  ♪♫ Mãezinha do Céu, eu não sei rezar… ♪♫
A: — Agora chega, vamos dormir.
Miguel senta na cama, aponta o dedinho: — Olha a palhaçada, hein, tia Ana.

***

Sempre que a gente chama por qualquer motivo o Miguel responde: Sim senhora/senhor, vovó/vovô/papai/mamãe/titia/titio.

***

E se alguém briga com ele:
—  Chato!
— Quem é chato, Miguel?
— Eu!

 

 

I want it all

Sempre que eu sei de você me invade esse quentinho no peito, misturado com uma angústia e uma dose enorme de saudade.
E aí eu rolo a noite inteira na cama, às vezes insone, às vezes sonhando com uma cama nunca mais arrumada; um Box pequeno demais; três sapinhos abraçados e sorridentes; o céu cinza mais feliz do mundo.
E por vezes a minha vontade de te abraçar uma outra vez me dói a barriga. Por vezes pensar que isso pode não acontecer me dá medo e ânsia de vômito.
Não que eu não esteja feliz, porque eu estou. Me sinto segura, amada, útil.
Mas se eu pudesse querer qualquer coisa no mundo, se eu tivesse um gênio da lâmpada, eu quereria ter tudo. E tudo eu sei que não posso ter.

Body shaming e o que eu tenho a ver com isso

A reflexão começou cerca de um mês atrás, quando eu estava com amigas numa festa e uma moça se aproximou do nosso grupinho dizendo que “e daí se minha calça é feia? Ela é 36!” e repetiu isso umas muitas vezes, até a gente se cansar.
Continuou semanas depois, quando essa mesma moça comentava com uma amiga sobre a chegada do verão; e disse que nunca mais sairia da rotina de exercícios, na qual entrara quando o descontrole havia chegado a um limite inimaginável, imaginem: a moça chegou a vestir manequim 40! Que horror, não?*

 Quando eu ouvi a conversa, só consegui pensar que, nossa! isso deve fazer de mim uma baleia. Eu ri e achei bobo porque eu não poderia me sentir mais confortável a respeito do meu corpo do que me sinto hoje. Acontece que nem sempre foi assim, e foi por isso que esses episódios custaram a me sair da cabeça.

Na infância, eu era, nas palavras da minha avó, muito magrela e muito “joelhuda”. Quando veio a puberdade, num minuto eu usava tamanho 34-36 e no outro eu usava 40. Não me achava gorda e não o era, mas não era mais magricela e joelhuda. Na escola, eu jogava handebol e vôlei, andava de bicicleta todos os dias por pelo menos meia hora e ia nadar sempre que não tinha lição de casa ou treino.
Aos 16 anos, comecei a trabalhar das 8h às 18h num cartório, mudei meu horário escolar da manhã para a noite e, é claro, abandonei todas as atividades extracurriculares que não eram fundamentais pra minha formação acadêmica porque eu não tinha tempo ou vontade de encontrar tempo pra me movimentar. Eu gostava daquilo, mas tinha muito mais a ver com diversão e eu não podia me dar ao luxo de me divertir tantas vezes por semana porque eu tinha mais o que fazer.
Não demorou pra que eu começasse a ganhar peso, e me inscrevi numa academia, mas aquele não era o meu jeito favorito de me mexer, então é claro que eu não fiquei por lá o mês inteiro que eu paguei.
Encontrei vários nutricionistas ao longo da minha adolescência e alguns hábitos eram muito fáceis de adquirir, então no começo eu sempre via bons resultados. Quando o ritmo começava a diminuir, no entanto, eu começava a oscilar de um extremo a outro: alternava entre muitas horas sem ingerir absolutamente nada além de água e instantes de compulsão alimentar insana, irrefreável. Invariavelmente, o tratamento nutricional passava a não valer de  nada porque eu simplesmente não seguia o plano.
Fiz incontáveis dietas loucas – a maioria das quais eu escondia de todos, porque era óbvio que aquilo não podia ser saudável. Emagreci tantos quilos quantos ganhei de volta.

Não sei dizer em que parte do caminho foi que eu parei de me preocupar tanto com isso. Quando foi que eu comecei a me achar bonita da maneira que eu sou, a gostar do que vejo no espelho. Assim, desse jeito. Meio gorda, dentes da frente um pouco tortos, quadris imensos. To linda. *muah*

É claro que eu ainda sinto falta de encontrar algum movimento que me faça bem (acontece que bons hábitos são tão difíceis de adquirir quantos os ruins são de largar), espero um dia sentir vontade de verdade de parar de fumar, enfim: trabalhar na minha qualidade de vida.
Eu estava tentando fazer todas as coisas certas, mas pelos motivos errados. E fico feliz que tenha dado tudo errado. Podia ser eu entrando no meio de um grupinho de amigas acima do peso, um mês atrás, só  pra contar pra elas que a minha calça era 36. Talvez, pelo fato de a minha jornada rumo à magreza não ter dado certo, eu tenha me tornado uma pessoa menos superficial. Eu gosto de pensar que sim.

Porque hoje, nem tanto tempo assim depois que tudo isso aconteceu, eu tenho muito mais vergonha de ter maltratado meu corpo da maneira que o maltratei, negando meu biotipo, tentando atingir padrões inatingíveis, ditados por alguém que sequer sabia da minha existência; do que tenho vergonha de tirar a roupa pra ir à praia ou pra transar de luz acesa.
Ainda bem que eu aprendi a me amar mais.

Hilda manda um “beija meu cofrinho” pros ditadores da magreza.

*Alerta de ironia, pra quem é meio Sheldon.

Miguelices*

De manhã cedo, na beira da minha cama:
– Acorda, princesa. *beijo na bochecha*

***

Família sentada à mesa pra almoçar.
– Papai Pedro vem?
– Papai está no trabalho.
– Mamãe Pedra, vem papar! Mamãe Pedra, vem!

***

– Miguel, vamos cortar esse cabelo?
– Vai doer?

***

– Quantas horas são, Miguel?
– Doi reai pra comprar bala.

*Vou colocando aqui só pra morrer de saudade quando ele fizer treze anos e ficar impossível.

Speechless

Faz tanto tempo desde a última vez em que eu escrevi aqui e tanta coisa mudou.  Acontece que, de alguma forma, tudo continua tão igual. E eu quis tanto escrever, tirar um pouco isso de mim, até o fiz, mas nada me pareceu bom o suficiente ou interessante o suficiente. Exatamente porque quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas e isso. é tão. cansativo.
Tem tanta gente pra quem eu preciso ligar, não só gente que pode realmente mudar o cenário, mas gente de quem eu preciso por motivos de preciso. E daí eu to  aqui incapaz de pegar o telefone e vai saber porque.
E não fosse o suficiente estar super precisada daquela terapia a gata resolve que dá estágio com pessoas loucas, então tá. Eu queria apenas comentar que apareço (quando apareço) depois das 9h e saio antes das 15h30m e ainda assim teve nega que me achou ~~ameaçadora o suficiente para simular que eu furtei coisas do escritório. risos. muitos risos.
Uma vida resumida em sentir que se está a milhas e milhas e milhas de qualquer lugar decente. Em qualquer momento da vida. Em qualquer fragmento de sonho.

***

– Pai, to tão insatisfeita com a minha vida.
– Todo mundo tá insatisfeito. Tem gente que finge melhor.

***

Uma biblioteca linda no escritório, cheia de títulos deliciosos. A gata escolhe para ler nesta semana super legal: Amar, verbo intransitivo. Só queria que todos soubessem que se a vida está um saco a culpa disso é toda minha.
Pelo menos o boy tá barbudo (depois de uma insistência sem fim, acho que ele desistiu) e me ama.

Na sexta-feira, ao meio-dia, aconteceu comigo uma coisa que eu buscava há meses. Depois de tanto estudo, de tanto sacrifício, de comer mal e descansar muito pouco, passei numa prova dificílima, provei minha capacidade, fiquei orgulhosa de mim.
À uma da tarde, confirmei uma suspeita horrorosa e desprezível e desde então nada faço além de me perguntar o que dá pra fazer com isso.

No sábado, às três e quarenta da manhã, eu não conseguia dormir nem respirar direito e fui me esconder dos meus monstros debaixo da tua coberta. Você me abraçou e “shhh… respira fundo, assim ó” e de repente eu consegui respirar de novo e finalmente adormecer.
Às dez da noite, você me levou pra sair. E daí tocaram “Daughter” na festinha e você reparou meus olhos tristes, mas disfarçou um pouco antes de me levar embora.

No domingo, às seis e meia da manhã, eu estava prestes a enlouquecer quando você ouviu meus soluços e de um salto veio parar ao meu lado. “Shhh… respira!” E o carinho na cabeça. E finalmente o desmaio.
Daí você me trouxe pra casa e voltou pra sua, porque o fim de semana acabou.

E eu aqui, ainda imaginando o que será que dá pra fazer com isso.
E soluçando e enlouquecendo e sem conseguir respirar direito.
E, por alguma razão, parece que eu só consigo respirar quando você respira do meu lado, só consigo dormir quando você dorme do meu lado.
E eu aqui, morrendo de medo de nunca mais dormir.

Por favor, volta.

Sol na casa 8, Lua na casa 1

“Neste período, que vai de 01/07 (Hoje) a 03/07, a passagem do Sol pelo setor das crises pessoais pode significar um transbordamento de emoções e problemas que você tem tentado evitar nos últimos meses, Ana. A Lua em trânsito pela Casa 1 lhe chama à consciência de suas emoções, mas sugere também uma certa instabilidade emocional. A Lua neste momento pede que você não faça de conta que não existem coisas que lhe incomodam e que dê atenção a estes pontos.”

Querida Lua na casa 1, eu não tenho tempo pra isso. Não agora, não amanhã e nem dia 03. Instabilidade emocional, rá. Olha, esse surto vai ter de esperar mais um bocadinho…

Será que se eu enfiar os dedos nos ouvidos e gritar lalalalalalaáááá, consigo continuar fingindo que esses problemas não existem? Espero que sim, porque é exatamente o que eu pretendo fazer.

kd vodca